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Data de publicação: 03/08/2014 Comentários

Como o primeiro barco cruzou o Canal do Suez

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por Leonídio Paulo Ferreira
 
Em meados de novembro de 1869, um jovem Eça de Queirós com ambições de ser jornalista assistiu à inauguração da ligação entre o Mediterrâneo e o mar Vermelho. Quando regressou a Lisboa foi desafiado pelo amigo Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, a publicar uma série de reportagens que saíram entre 18 e 21 de janeiro de 1870. Numa escrita deliciosa, com tanto humor como perspicácia, o futuro autor de Os Maias fala do Egito, de Lesseps e de Suez.
"A polícia egípcia tinha esquecido que trezentos convidados, ainda que não tenham a corpulência tradicional dos paxás e dos vizires, não podem caber em vinte lugares de vagões, estreitos como bancos de réus. Por isso, em volta das carruagens havia uma multidão tão ávida como no saque de uma cidade. Jonas Ali, o nosso drogman, um núbio, intrigou, conspirou, clamou e alcançou-nos numa carruagem de segunda classe, miseravelmente desmoronada, dois lugares empoeirados." É Eça no seu melhor, misturando humor e tom de enfado, enquanto descreve o apanhar do comboio do Cairo para Alexandria, para daí seguir por barco até Port Said e assistir à abertura do Canal de Suez.
O companheiro de viagem é o conde de Resende, futuro cunhado. E a ação decorre em meados de novembro de 1869. Contudo, os leitores do DN só em janeiro seguinte puderam acompanhar os eventos, quando José Maria de Eça de Queirós, em resposta a um desafio de Eduardo Coelho, publica em quatro folhetins aquilo a que chama "uma narração trivial, o relatório chato das festas de Port Said, Ismaília e Suez". "Chato?" Modéstia de um génio de 24 anos, ainda a 18 anos de distância de criar Os Maias.
Eça e Eduardo Coelho, fundador do DN, tinham origens distintas. Um pertencia a uma família abastada do Norte e chegara a Lisboa depois de se ter formado em Direito em Coimbra. O outro viera aos 13 anos para a capital trabalhar como marçano. Mas entre ambos existia uma amizade que nem os dez anos a mais do diretor do DN atrapalhavam. Aliás, percebe-se que este admira o jovem e que tudo faz para o convencer a escrever no diário lisboeta. Que Eça tivesse sido convidado para o evento no Egito, era uma oportunidade. E, na terça-feira 18 de janeiro, o DN apresentava a primeira de quatro reportagens sob o título "De Port-Said a Suez".
A Alexandria, Eça nada liga. A reportagem inicial prossegue com o embarque no Fayoum. "E ao outro dia, por uma bela manhã, entrávamos em Port Said por entre os dois grandes molhes que se adiantam paralelamente pelo mar, feitos de poderosos blocos de pedra solta." Palavras secas para descrever "uma cidade de indústria e operários", mas abundantes para contar as celebrações: "A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas. Estavam ali as esquadras francesas do Levante, a esquadra italiana, os navios suecos, holandeses, alemães e russos, os yachts dos príncipes, os vapores egípcios, a frota do paxá, as fragatas espanholas, a Aigle, com a imperatriz, o Mamoudeb com o quediva, e navios com todas as amostras de realeza, desde o imperador cristianíssimo Francisco José até ao caide árabe Abd el-Kader. As salvas faziam o ar sonoro. Em todos os navios, empavesados e cheios de pavilhões, a marinhagem, perfilada nas vergas, saudava com vastos urras."
O segundo folhetim começa com um azar. O Lafite encalha e atrapalha. Eça descreve-o como "um pequeno vapor, calando pouco". Tanto Lesseps como Said Paxá, da dinastia de origem albanesa que governa o Egito desafiando os otomanos, dão sinais de desânimo. E o repórter solidariza-se: "Depois de dez anos de tantos esforços e tantas lutas, tantos combates com o deserto, e tantos combates com a intriga, depois de milhões sorvidos pelas areias, de tantas vidas aniquiladas, de tantos créditos fundados, de tantas festas anunciadas, depois das bênçãos de Mr. Bauer e das ovações a Mr. De Lesseps, era doloroso ver tudo aquilo findar repentina e vergonhosamente, ver-se que num canal feito para a navegação não cabiam navios, que aquilo era obra ridiculamente grandiosa, e que em lugar de tudo terminar em triunfos, tudo terminava em gargalhadas!" Foi só susto. O Lafite libertou-se do lodo e o grande Fayoum "penetrou corajosamente no canal".
Eça prossegue a narrativa, descrevendo "a insalubridade daqueles lugares miasmáticos". E de seguida elogia: "Naquela multidão de operários havia a mais absoluta ordem: ali, e em todo o percurso dos trabalhos, havia hospitais, ambulâncias, armazéns: caravanas percorriam o deserto trazendo víveres. Os europeus, logo ao princípio, esmagados pela imensidade e estranheza do trabalho, desertaram. Vinham então gregos, dálmatas, arménios, árabes. Todas as raças, todas as línguas, todas as religiões ali se reuniam."
O escritor não esconde admiração pelo engenheiro que idealizou o canal. E revela-se exímio na descrição do francês, que tentará um dia também escavar o do Panamá, quase se desgraçando: "Mr. De Lesseps andava sempre no caminho dos trabalhos, no seu belo dromedário branco." No terceiro texto, insiste: "É uma figura felgada e nervosa, bigode curto e branco, e dois olhos que faíscam em negro, cheios de inteligência."
O repórter relatava a passagem por Ismaília, que merece aplauso, porque "não é cidade rude e trabalhadora como Port Said". Pelo contrário, "tem já os refinamentos civilizados de uma capital". E numa saída noturna, para ver "as almeias de Beni-Ironef dançarem a dança da abelha", Eça cruza-se com Lesseps, que volta a elogiar como "diplomata, engenheiro, financeiro e soldado".
Aproxima-se, seis dias depois, o Suez, tema do quarto folhetim. Surge o relato de como os cientistas desfizeram o mito da diferença de nove metros entre o nível do mar Vermelho e o do Mediterrâneo e a revelação de Suez, aos olhos de Eça, como "cidade escura, miserável, decrépita". Ficamos a saber que os convidados se dispersam. Alguns vão para o Cairo, outros ficam em Suez (sempre havia "cafés-cantantes"). O enviado do DN segue para o Sinai, para "ver o oásis de Moisés". Talvez na cabeça fervilhasse O Mistério da Estrada de Sintra, que publicará, com Ramalho Ortigão, a partir de setembro de 1870, em folhetim. E, claro, no DN. Ganhou-se um grande escritor, perdeu-se um belo repórter.







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