Blogs > Mariângela > Lettera 22
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por Selvino Heck
Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República
"A educação é um meio. Não é só ir na escola aprender português e matemática e tirar boas notas. Educação é um conjunto de outras coisas, que vai além do tradicional. É preciso que ela se dê na realidade do aluno, que ele se veja aprendendo para a vida. E para o jovem ficar na roça, precisa de condições. Ele tem direito a computador como qualquer outro aluno da cidade, ele tem direito a lazer, ele tem direito a estudar mais, não só o primário. Ele precisa querer e gostar de ficar na roça e ter todas as condições para isso.” Foi a manifestação de Graça Amorim, da Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (FETRAF), do Maranhão, na XXXVII reunião da Seção Brasileira da Rede Especializada da Rede Especializada da Agricultura Familiar (REAF) do Mercosul, Brasília, maio de 2013. O tema em debate era a juventude: os problemas da educação no campo, a migração campo-cidade, o acesso à terra, a institucionalidade do tema juventude rural, um sistema de produção sustentável, entre outros.
Dias antes passou por Brasília José Pacheco, assim apresentado em ‘José Pacheco e a Escola da Ponte’, entrevista de Cristiane Marangon: "O educador português conta como é a Escola da Ponte, em que não há turmas, e diz quem quer inovar deve ter mais interrogações que certezas. José Pacheco não é o primeiro, nem será o último, a desejar uma escola que fuja do modelo tradicional. Ao contrário de muitos, no entanto, o educador português pode se orgulhar por ter transformado seu sonho em realidade. Há 28 anos ele coordena a Escola da Ponte. Apesar de fazer parte da rede pública portuguesa, a escola de ensino básico, localizada a 30 quilômetros da cidade do Porto, em nada se parece com as demais”.
José Pacheco está querendo implantar suas ideias e práticas de educação em Valparaíso, Goiás. Nas conversas, com a presença de Pedro Pontual, educador popular e Diretor do Departamento de Participação Social da Secretaria Geral da Presidência, defendeu que é preciso sair de um sistema de ensino para um modelo e uma pedagogia de aprendizagem, isto é, sair de um modelo de século XIX para um modelo do século XXI, e que o Brasil, por suas características de povo, de história e de experiências educacionais, tem tudo para dar este salto.
A Escola da Ponte não segue um sistema baseado em seriação ou ciclos e seus professores não são responsáveis por uma disciplina ou por uma turma específica. As crianças e os adolescentes que lá estudam, muitos deles violentos, transferidos de outras instituições, definem quais são suas áreas de interesse e desenvolvem projetos de pesquisa, tanto em grupo como individuais. A cada ano, as crianças e os jovens criam as regras de convivência que serão seguidas, inclusive por educadores e familiares. É fácil prever que problemas de adaptação acontecem. Há professores que vão embora e alunos que estranham tanta liberdade. Nada, no entanto, que faça a equipe desanimar.
É preciso ser criativo e ousar, num país em que a presidenta Dilma está colocando a educação como prioridade máxima, ao lado do fim da miséria. Aliás, como disse a presidenta, ‘o fim da miséria é só o começo’.
A experiência da Escola da Ponte começou em 1976. Relata José Pacheco, o professor Zé, como gosta de ser chamado: "Até 1976, a escola era igual a qualquer outra de primeira a quarta série. Cada professor ficava em sua sala, isolado com sua turma e seus métodos. Não havia comunicação ou projeto comum. O trabalho escolar era baseado na repetição de lições, na passividade. Naquele ano, havia três educadores e 90 estudantes. Em vez de cada docente adotar uma turma de 30, juntamos todos. Nosso objetivo era promover a autonomia e a solidariedade. Antes disso, chamamos os pais, explicamos o nosso projeto e perguntamos o que pensavam sobre o assunto. Eles nos apoiaram e defendem o modelo até hoje”.
A diferença está no seguinte: "Nós acreditamos que um projeto como o nosso só é viável quando todos reconhecem os objetivos comuns e se conhecem. Isso não significa apenas saber o nome, e sim ter intimidade, como em uma família. É nesse ponto que o projeto se distingue. O viver em uma escola é um sentimento de cumplicidade, de amor fraterno. Todos que nos visitam dizem que ficam impressionados com o olhar das pessoas que ali estão, com o afeto e a palavra que trocam entre si”.
Quando perguntam ao professor Zé se o modelo pode ser seguido, ele responde: "Não defendo modelos. A Escola da Ponte fez o que as outras devem e podem fazer, que é produzir sínteses e não se engajar em um único padrão”.
A educação popular, na pedagogia do educador Paulo Freire, tem muito a dialogar com a Escola da Ponte. A educação popular freireana sempre parte da realidade do educando, propõe a dialogicidade e a construção coletiva, tendo a amorosidade como cimento das relações. O educando não é objeto, mas sujeito. Sujeito de direitos. É a educação não formal, forjada nos movimentos sociais, na base popular, que mantém vivo o sonho da transformação da sociedade.
Graça Amorim talvez não saiba da Escola da Ponte, mas certamente ouviu falar de Paulo Freire e sua pedagogia libertadora e da autonomia. Em tempos de 2ª Conferência Nacional de Educação, cujo tema central é ‘O Plano Nacional de Educação (PNE) na articulação do Sistema Nacional de Educação: participação popular, cooperação federativa e regime de colaboração’, em realização, são ideias e práticas que podem levar a educação brasileira para o século XXI.
Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&lang=PT&cod=75341
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Em 1872 surge a palavra bonde, sua origem se deve ao fato de que naquela época as passagens custavam 200 Reis, e não existiam moedas de prata deste valor em circulação. Em vista disso, a empresa emitiu pequenos cupons ou bilhetes em grupo de cinco, pelo preço de um mil reis, pois existiam grande quantidades de cédulas deste valor em circulação. Os bilhetes (ricamente ilustrados) impressos nos Estados Unidos, eram conhecidos como “Bonds” (Bônus, Ação).
A própria empresa denominava bond os cupons, por entender que realmente representava o compromisso assumido de, em troca transportar o portador em um de seus veículos. Com o tempo o povo passou a denominar o próprio carril de ferro urbano como bond, designação que mais tarde se consagrou com o neologismo “bonde”.
Muitos ainda se lembram com saudosismo dos bondes que circulavam por São Paulo. A última linha, a Santo Amaro, funcionou até 1968. Ainda hoje é possível encontrar pela cidade marcas de seus trilhos. Eles eram muitos. Na década de 1930, havia quatro vezes mais trilhos de bonde do que há de metrô hoje.
A história desse meio de transporte na cidade, a partir de 1872, quando era puxado por burros, até a extinção dos bondes elétricos, é contada agora de maneira ricamente ilustrada no livro "Bonde saudoso paulistano", de Fernando Portela. Editora Terceiro Nome.
Outras informações interessantes: http://terceironome.wordpress.com/category/bonde-saudoso-paulistano/
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Alguns anos depois que nasci, meu pai conheceu um estranho, recém-chegado à nossa pequena cidade. Desde o princípio, meu pai ficou fascinado com este encantador personagem, e em seguida o convidou a viver com nossa família.
O estranho aceitou e desde então tem estado conosco. Enquanto eu crescia, nunca perguntei sobre seu lugar em minha família; na minha mente jovem já tinha um lugar muito especial.
Meus pais eram instrutores complementares: Minha mãe me ensinou o que era bom e o que era mau e meu pai me ensinou a obedecer. Mas o estranho era nosso narrador. Mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias. Ele sempre tinha respostas para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, história ou ciência. Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro!
Levou minha família ao primeiro jogo de futebol. Fazia-me rir, e me fazia chorar. O estranho nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava.
Às vezes, minha mãe se levantava cedo e calada, enquanto o resto de nós ficava escutando o que tinha que dizer, mas só ela ia à cozinha para ter paz e tranquilidade. (Agora me pergunto se ela teria rezado alguma vez, para que o estranho fosse embora).
Meu pai dirigia nosso lar com certas convicções morais, mas o estranho nunca se sentia obrigado a honrá-las.
As blasfêmias, os palavrões, por exemplo, não eram permitidos em nossa casa? Nem por parte nossa, nem de nossos amigos ou de qualquer um que nos visitasse. Entretanto, nosso visitante de longo prazo, usava sem problemas sua linguagem inapropriada que às vezes queimava meus ouvidos e que fazia meu pai se retorcer e minha mãe se ruborizar.
Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool. Mas o estranho nos animou a tentá-lo e a fazê-lo regularmente. Fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo, e que os charutos e os cachimbos fossem distinguidos.
Falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo. Seus comentários eram às vezes evidentes, outras sugestivos, e geralmente vergonhosos. Agora sei que meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante minha adolescência pelo estranho.
Repetidas vezes o criticaram, mas ele nunca fez caso aos valores de meus pais, mesmo assim, permaneceu em nosso lar. Passaram-se mais de cinquenta anos desde que o estranho veio para nossa família. Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era ao principio.
Não obstante, se hoje você pudesse entrar na guarida de meus pais, ainda o encontraria sentado em seu canto, esperando que alguém quisesse escutar suas conversas ou dedicar seu tempo livre a fazer-lhe companhia... Seu nome?
Nós o chamamos Televisão.
Agora ele tem uma esposa que se chama Computador, e um filho que se chama Celular!
Fonte: http://www.contandohistorias.com.br/historias/2006594.php
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"Neste momento das nossas vidas, Willie e eu estamos num desses umbrais, o da maturidade, quando quase tudo se deteriora: o corpo, a capacidade mental, a energia e a sexualidade.
Que diabo nos aconteceu? (...) Certa manhã nos vimos despidos no espelho grande do banheiro e ambos nos sobressaltamos. Quem eram aqueles velhinhos intrusos em nosso banheiro?
Nesta cultura, que supervaloriza a juventude e a beleza, são necessários muito amor e alguns truques de ilusionista para manter vivo o desejo pela pessoa que antes nos excitava e agora está achacosa e gasta.
Em minha idade respeitável, na qual me dão desconto no cinema e no ônibus, tenho o mesmo interesse de sempre pelo erotismo. Minha mãe, que completou 90, diz que isso nunca acaba, mas é melhor não espalhar, porque o resultado é chocante; supõe-se que os velhos são assexuados, como as amebas.
Por dentro Willie [William Gordon, com quem está casada há 26 anos] não mudou, continua sendo o mesmo homem forte e bom por quem me apaixonei.
Por isso estou empenhada em manter acesa a paixão, embora já não seja o fogo de uma tocha, mas a chama discreta de um fósforo. Outros casais da nossa idade exaltam os méritos da ternura e do companheirismo, que substituem o alvoroço da paixão, mas já avisei a Willie que não pretendo substituir a sensualidade por aquilo que já tenho com a minha cachorrinha. Ainda não..."
É dessa forma honesta e divertida que a escritora Isabel Allende, 70, nos introduz ao seu mais recente livro: "Amor" (Editora Bertrand Brasil, 240 págs, R$ 29), que reúne seus principais contos de amor.
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Em artigo para o 'New York Times', atriz revela que passou por uma dupla mastectomia preventiva, uma cirurgia para retirada dos seios
Mulheres com alto risco de desenvolver câncer de mama e dos ovários podem considerar uma mastectomia preventiva como forma de diminuir esse risco. Foi o que fez a atriz Angelina Jolie, que revelou em artigo para o jornal New York Times nesta terça-feira, 14, que optou pela dupla mastectomia preventiva (retirada de ambos os seios) depois de descobrir, através de uma série de exames médicos (que custam mais de US$ 3 mil dólares nos Estados Unidos, “um obstáculo para muitas mulheres”, ela reconhece), que era portadora de um gene “defeituoso”, o BRCA1. Esse gene, somado a um histórico familiar com alta incidência da doença, podem aumentar significativamente a probabilidade de se desenvolver câncer de mama e dos ovários. No caso da atriz, médicos disseram que ela tinha 87% de chances de ter câncer de mama e 50% dos ovários.
É louvável e corajosa a atitude da atriz, considerada um dos maiores símbolos sexuais de Hollywood, de vir a público com sua polêmica escolha médica. Polêmica porque, afinal, Angelina retirou seios absolutamente saudáveis, mas que para ela eram como duas bombas-relógio. No artigo, a atriz revela seus motivos: “A minha mãe lutou contra o câncer durante quase uma década e morreu aos 56” e “Posso dizer a meus filhos que eles não precisam ter medo de me perder para o câncer de mama”. Angelina tenta não maquiar a complexidade do procedimento. Fala das várias cirurgias por que passou, admitindo que sentiu dores e teve hematomas ao longo do processo e que a maior das intervenções lhe pareceu uma cena saída de um filme de ficção científica.
Exemplo a ser seguido?
No meio do texto, a atriz diz que resolveu tornar pública sua decisão na esperança de ajudar outras mulheres, fazendo com que se beneficiem da sua própria experiência. O que ela intenciona, aparentemente, não é que todas as mulheres com risco de câncer se submetam ao procedimento, mas que façam o teste diagnóstico (US$ 3 mil nos EUA). Ao que tudo indica, Angelina não pretende ser pivô de um efeito dominó que desencadeie milhares de mastectomias preventivas pelo mundo. Diz apenas: “Câncer é ainda uma palavra que planta medo no coração das pessoas, produzindo uma profunda sensação de impotência. Mas hoje é possível descobrir, através de uma análise de sangue, se somos altamente susceptíveis ao câncer da mama e dos ovários e então tomar uma atitude.”
O que Angelina não enfatiza é a importância de que toda a mulher considerando a mastectomia preventiva converse com um médico sobre o seu risco de desenvolver câncer (com ou sem a mastectomia), o procedimento cirúrgico e possíveis complicações (sangramentos, infecções, depressão etc). Todas as mulheres são diferentes, de modo que a mastectomia preventiva deve ser considerada no contexto de fatores de risco específicos de cada mulher e seu nível de preocupação. O procedimento certamente não é recomendado em todos os casos. Para retirar ovários, por exemplo, os médicos recomendam que a paciente tenha pelo menos mais de 40 anos. Muitas também preferem não saber as suas chances de desenvolver o câncer ou achariam desnecessário retirar partes fundamentais da anatomia feminina antes do aparecimento da doença.
“Não me sinto menos mulher”, escreveu Angelina, antecipando eventuais perguntas daqueles (tantos!) que a veem como símbolo sexual. “Sinto-me mais poderosa porque fui capaz de fazer uma escolha forte que de forma alguma diminui a minha feminilidade.” Angelina mostrou mais uma vez ser uma mulher corajosa. Sua decisão de tornar pública uma escolha médica profundamente pessoal foi ousada e admirável. É para isso que serve o status de celebridade. Talvez Angelina nunca tenha merecido tantos aplausos como agora.
Fonte: http://opiniaoenoticia.com.br/opiniao/a-escolha-medica-de-angelina-jolie/
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Pequeno trecho extraído de http://www.revistabula.com/383-a-ultima-entrevista-de-guimaraes-rosa/
Uma preciosidade histórica da língua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimarães Rosa morreria menos de um ano depois de tê-la concedido
Quando escrevo, não penso na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Moçambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Portugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sempre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um caderninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.
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Autor desconhecido
Era uma vez dois primos que foram criados juntos. Aprenderam a rastejar e a engatinhar juntos, mais tarde a correr, nadar, jogar bola e tudo o mais que os meninos fazem juntos. Eram amigos leais e devotados. Porém, com o tempo, foram se distanciando, como acontece até mesmo com bons amigos, ao saírem pela vida. Um deles dedicou-se aos livros; descobriu um certo prazer em aprender e estudou muito, acabando por triunfar nos exames.
O outro primo resolveu que os livros não eram lá tão boa companhia. Faltou muito às aulas, para continuar a nadar e jogar bola; ignorou os deveres e acabou fracassando nos exames. A sorte sorriu ao primeiro, que se tornou conselheiro do próprio rei. O segundo primo acabou arranjando serviço de remador do navio real.
Um dia, o rei e todos os conselheiros reais embarcaram para uma viagem rio acima. Sentados sob um dossel, na proa do barco, onde a brisa era mais agradável, discutiam negócios de estado enquanto o barco seguia.
O remador, vendo o primo bem à vontade com a realeza, ficou muito abalado.
- Olhe só aquele preguiçoso, espichado na sombra, enquanto eu fico aqui moendo os ossos ao sol disse para si mesmo, continuando a remar.
- Por que ele tem o direito de se sentar lá, e eu não? Afinal, nós dois não somos criaturas de Deus?
Quanto mais pensava, mais furioso ficava.
- Olhe só estes palermas, inúteis - começou a resmungar para um companheiro remador.
- Intitulam-se conselheiros, mas só ficam à toa, jogando conversa fora. Por que é que nós temos que suar tanto para puxar as carcaças deles contra a corrente? Isso não é nada justo! Eles deviam estar aqui, remando também. Não somos todos criaturas de Deus?
Aquela noite ancoraram para pernoitar. Todos comeram e dormiram logo. O remador acordou no meio da noite, com uma mão muito firme sacudindo-lhe os ombros. Era o próprio rei.
- Há um barulho esquisito vindo daquela direção - disse, apontando para a terra. - Não consigo dormir, imaginando o que seja. Por favor, vá e descubra.
O remador pulou fora do barco e subiu correndo para o alto de um morro. Voltou poucos minutos depois.
- Não é nada, Majestade - disse. - Uma gata acabou de dar à luz uma ninhada de gatinhos barulhentos.
- Ah, sim. - disse o rei. - que tipo de gatinhos?
O remador não tinha olhado para os filhotes. Correu de novo morro acima e voltou.
- Siameses - disse.
- E quantos são os gatinhos? - perguntou o rei.
Isso o remador também não tinha reparado. Voltou lá.
- Seis gatinhos. - reportou.
- Quantos machos e quantas fêmeas? - perguntou o rei.
O remador correu para lá mais uma vez.
- Três machos e três fêmeas - gemeu, já quase sem fôlego.
- Está bem - disse o rei. - Venha comigo.
Foram pé ante pé até a proa do barco, e o rei acordou o primo do remador.
- Há um barulho esquisito em cima daquele morro - disse-lhe ele. - vá lá e descubra o que é. O conselheiro desapareceu na escuridão e voltou pouco depois.
- É uma ninhada de gatinhos recém-nascidos, Majestade - disse.
- Que tipo de gatos? - perguntou o rei.
- Siameses - respondeu o conselheiro.
- Quantos?
- Seis.
- Quantos machos e quantas fêmeas?
- Três machos e três fêmeas. A mãe deu à luz dentro de um barril revirado, logo depois de chegarmos. Os gatos pertencem ao prefeito do vilarejo. Ele espera não ter incomodado Vossa Majestade, e convida-o a escolher um deles, caso a corte precise de algum animalzinho real de estimação.
O rei olhou para o remador.
- Eu ouvi seus resmungos, hoje cedo - disse ele. Sim, todos somos criaturas de Deus. Mas todas as criaturas de Deus têm o seu trabalho a executar. Precisei mandá-lo quatro vezes à praia, para obter as respostas. Meu conselheiro foi uma vez só. E é por isso que ele é meu conselheiro, e você fica com os remos do barco.
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pelo viés de Gianlluca Simi
Muitos domingos de infância eram acompanhados por um passeio pela minha cidade natal, São Vicente do Sul. Depois do almoço, enquanto grande parte da cidade tirava sua sesta, minha mãe me levava num vagaroso passeio de carro. Nossa missão era olhar as casas, os jardins, as pessoas, as ruas. Assim, pela tela em que o vidro do carro se transformava, peregrinávamos pela arquitetura da cidade. Sem destino definido e sem pressa.
Enquanto passeávamos, acompanhávamos as mudanças: as novas casas, as novas ruas, os traços na alvenaria e na madeira que gritavam a época de sua construção e seu estilo respectivo. Mas, acima de tudo, andar pela cidade nos mostrava como as pessoas, com suas realidades e suas expectativas, mudavam aoconstruir suas casas, em terrenos antes baldios, com estilos tão bem distinguíveis.
Enxergar a cidade não é nada extraordinário. Moramos nela, conhecemos muitas de suas ruas, sabemos de cor os caminhos que nos valem e os lugares a que geralmente vamos. Difícil é sabermos contemplá-la da mesma maneira que fazemos com os lugares que visitamos em férias, por exemplo, como se fosse aquela a única vez em que pudéssemos vislumbrar tal paisagem. O turista parece bem mais atento ao olhar do que o habitante.
A grande diferença entre quem visita e quem mora é a relação entre o tempo e a intensidade do olhar. O turista se deslocou com propósito e com hora marcada: ele precisa aproveitar ao máximo, mesmo que isso só se traduza numa série de fotografias de viagem. O habitante tem uma vida já estabelecida: casa, trabalho, mercado, banco etc. Tudo está já disposto no seu mapa mental. Prova disso é pensarmos em quantas imagens fazemos do lugar em que passamos a maior parte do nosso tempo em comparação com as que fazemos dos lugares pelos quais só passamos. O que está ao alcance garantido do olhar escapa de nossos esforços de representação e de compreensão. A imobilidade aparente nos estanca um tanto da vibração e do calor humanos.
Quem não se anima com a iminência de uma nova paisagem? Somos curiosos e apreciamos novos contornos. Só que, na maior parte do tempo, as novas paisagens não se somam a paisagens antigas, já conhecidas, consumidas e processadas. Não prestamos atenção aos lugares ordinários – pelo menos não com a intenção da descoberta. Nossos sentidos se acostumam com a rotina geográfica e esta-cá acaba os anestesiando ao ponto de nos entediarmos com o lugar onde estamos.
De repente, o tédio não nos cega só para as paisagens de quadros mas também para as quebras urbanas. Como estamos sempre com pressa, sem tempo para errar os passos, não enxergamos mais esquinas, nem planos urbanísticos absurdos, nem obras inacabadas por desvio de recursos ou desinteresse de empreiteiras, nem nada. Se já não enxergamos mais o desenho da cidade, tampouco enxergamos as consequências humanas das formas urbanas. Os contornos se apagam e nossa vida se basta nas obrigações de chegar a tal lugar a tal hora. Os caminhos se esvaziam.
No entanto, num domingo, por exemplo, assim como nas férias ou em qualquer outro tempo de descanso, podemos procurar novos ares. Andamos, passeamos, flanamos. Fazemos city tours e passeios guiados. Sacamos fotografias. Registramos o fora do comum. Até que voltamos à segunda-feira de trabalho, à volta às aulas, a mais um ciclo de obviedades e, de novo, perdemo-nos da cidade em que vivemos. Entediados, estressados, cansados.
Como superar o olhar efêmero sobre a cidade? Viajar por ela. Aproveitar qualquer momento para tomar uma rua diferente, mudar o caminho, passar por aquela área que só conhecemos pelos letreiros dos ônibus. A viagem não precisa ser um momento estupidamente carnavalesco. Pode ser tão simplesmente abrir os sentidos às silhuetas urbanas tão frias e distantes dos ‘dias úteis’.
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Pode-se enganar a todos por algum tempo;
pode-se enganar alguns por todo o tempo;
mas não se pode enganar a todos por todo tempo.
(Abraham Lincoln)
Por Abraham Lincoln
Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais. Encontramo-nos atualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra.
Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.
Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes.
O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram. Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insigne mente adiantada pelos que aqui combateram.
Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente - que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção - que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra.
Abraham Lincoln foi presidente dos EUA. Morreu assassinado. Discurso, em 19 de novembro de 1863, de apenas 289 palavras, ditas em menos de dois minutos, é um dos mais famosos de Lincoln.
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http://maurobernacchio.blogspot.com.br/
Quem inventou o avião?
Para nós brasileiros e para os franceses, foi Santos Dumont.
Para os americanos, foram os irmãos Wright.
Mas isso não importa. O importante é que as duas maiores fábricas de aviões do mundo estão nos Estados Unidos e na França.
Quem inventou o futebol?
Foram os ingleses.
Mas isso não importa. O importante é que o Brasil é o maior campeão.
Quem inventou o tablet (IPad) ?
Foi a Apple.
Mas isso não importa. A Samsung é hoje a maior vendedora de tablets do mundo.
Mas o que eu quero dizer com tudo isso?
É muito simples: ter uma boa ideia não significa nada se você não consegue colocá-la em prática.
Muitas vezes é mais fácil copiar uma ideia de alguém e implementá-la, ao invés de ficar queimando os neurônios.
Depois de implementá-la, você deve continuar aperfeiçoando, caso contrário aparecerá alguém que te copiou e depois melhorará.
Normalmente nas empresas, as pessoas não gostam de copiar uma ideia que deu certo em outra área. Acham que é um demérito.
Isso é um grande erro. O que importa é o resultado que você obtém e não qual foi a origem da ideia.
Do lado oposto, alguém que teve uma boa ideia tenta esconder dos outros. Também é um grande erro. Deveria disseminá-la para as outras áreas da empresa. Todos estão “no mesmo barco” e ele não deve tornar-se um Titanic.
Todos esses conceitos valem também para a vida pessoal.
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