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Mariângela

Blogs > Mariângela > Lettera 22

Data de publicação: 18/04/2014 Comentários

Vou-me embora pra Macondo

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E diz que quando um homem extraordinário chega ao Reino dos Céus é feriado santo. Por obra do acaso, mera coincidência, conspiração dos anjos ou expressão suprema da Vontade de Deus, hoje é.
Aquele que mostrou ao mundo que a América do Sul não é só um senhor de bigodes com um violão e um revólver partiu. Simples, satisfeito e agradecido, voou sorrindo sua curiosidade sobre o que virá, o que sempre vem, lançado às nuvens pelo sopro fresco e perfumado de mil anjos, até chegar ao paraíso em festa literária para ele.
Ali, sob uma explosão de palmas ruidosas como a chuva de pedras que despenca nos telhados das casas de uma aldeia ardente, ele avista todos os seus heróis. Os contadores de histórias que um dia acordaram sua alma para a vida e agora a recebem de volta à casa. Vê os santos vestindo suas melhores roupas e intenções. Mira Sant'Ana, mãe de Maria e avó de Jesus, que lhe acena com um sorriso familiar revelando a doçura que ainda resta no mundo. E olhar Sant'Ana é como reencontrar os olhos da mãe de sua mãe, que havia muito se perderam nos corredores que a memória lhe fechara.
Caminhando leve e assombrado como o pequeno Gabito de Aracataca quando avistara o rio na companhia de seu avô pela primeira vez há muito, muito tempo, ele vai lento até os portões do Paraíso.
Dá mais dois passos e vê que lá estão também, enfiados entre os santos e os escritores, uma gente antiga e velha conhecida. José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, Nicanor Ulloa e Rebeca Montiel, Amaranta e Pietro Crespi, até Florentino Ariza e Fermina Daza e todos os outros. Tantas outras almas nascidas de sua pena mágica e generosa, agora aceitos no Céu para sua absoluta surpresa.
Ele caminha em suas sandálias de couro, e ressurgem em sua memória um milhão de imagens havia tanto perdidas, escondidas pela velhice e a doença das quais agora se compreende livre. Abrem-se os corredores largos de sua cabeça fantástica, escancaram-se as portas e as janelas e por elas a luz invade violenta e irrecusável seu mundo interior que se confunde com todo o resto. A máquina volta a pulsar, a vida retoma sua potência em histórias bombeadas para as artérias e veias e vasos infinitos do universo por um coração incansável, vivo para sempre.
E o homem de outra ordem entende que está voltando para casa.
O som das palmas celebrando sua chegada aumenta até doer-lhe os tímpanos de criança e o obriga a curvar-se levemente em agradecimento constrangido. E então, olhando lá de cima, através das nuvens onde flutuam seus pés ele contempla a humanidade lá embaixo, pequenina e perdida. Vê as sombras e as luzes, o encontro e a solidão, o ódio e seus ardis, a incompreensão, o egoísmo, a sanha de destruir, o escárnio, a crueldade, a mentira e a morte à espreita. E vê o trabalho, o esforço, a boa vontade e o amor com todos os seus nomes e seus rostos. Tudo isso num imenso vale tornado pequeno, como se visse formigas que devoram seus dias na labuta. Lá de cima, as mãos postas sobre os joelhos, ele olha os homens e as mulheres e as crianças e os velhos no conjunto de seus dias com afeto e saudade. Adeus, gente amiga.
Então, ele para diante dos portões do céu e repara. Não são portões dourados, construídos do ouro maciço de todos os reis, mas uma entrada simples, de madeira rústica, envelhecida e forte, com ramos de hera subindo-lhe pelos batentes e um cheiro leve da tinta amarela que algum santo há pouco pincelara em suas grades para receber o recém-chegado com simpatia.
No alto do portão há uma placa e um nome. Macondo.
Ele havia precisado de oitenta e sete anos, os oitenta e sete anos de sua vida, minuto a minuto, para chegar até ali. Sentiu-se puro, explícito, invencível, no momento de dizer suas novas primeiras palavras:
— Gracias, compañeros! Y ahora, si me disculpan, tengo un montón de trabajo.
Para Gabriel José García Márquez, dos maiores, o maior.






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