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BAIRRO SÃO PAULO

Os sonhos de quem busca uma comunidade melhor pra se viver

09/03/2012 - 09:19 - Atualizado em 09/03/2012 - 09:31

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Conheça as aspirações de um povo que luta, diariamente, por um lugar ao sol

Por Leonardo Tomé

Pelas muitas ruas de chão batido do bairro São Paulo, em Navegantes, o que não falta é gente que sonha com um amanhã melhor. É como se aquela gente incorporasse uma das muitas máximas do poeta gaúcho Mário Quintana: “sonhar é acordar-se para dentro”. Um amanhã com condições básicas de infraestrutura, pavimentação nas ruas do bairro, postinhos de saúde capazes de atender a todos, escolas e creches que eduquem os filhos do povo. É o futuro esperado por quem vive no bairro considerado o mais violento e o mais esquecido pelas autoridades em Navegantes.
Nesta terceira e última edição da série especial sobre o bairro São Paulo, o DIARINHO dá voz aos moradores e suas aspirações por uma comunidade melhor e mais estruturada. São sonhos simples, muitas vezes. Como o que confidenciou à reportagem o aposentado Jones Eleotério de Jesus, 71 anos. “Sempre quis ver a minha neta terminar os estudos, aqui mesmo no bairro”, revela.
Mas pro sonho de seu Jones se realizar vai ser preciso que a prefeitura ou o governo do estado traga para o bairro o ensino médio, pois hoje as aulas só vão até a oitava série. O aposentado tem fé de que isso aconteça em breve. “Ela tá na 5° série. Quem sabe, até terminar, eles já não tenham aumentado a escola”, sonha seu Jones.
Algumas das aspirações dos moradores do bairro - que já foi uma ocupação de moradores sem teto - estão se concretizando. Como a pavimentação nas ruas e um novo posto de saúde. Outros sonhos ainda parecem distantes de acontecer. Mas todos têm em comum o fato de serem anseios de quem quer uma vida melhor e mais digna não só pra sua família, mas também pros seus vizinhos. Afinal, é como cantava Raul Seixas: “Sonho que se sonha só e só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”.

A ajuda do filho e dos amigos garantiu uma casa melhor pra dona Ivonete
As rugas no rosto e a fala mansa revelam: dona Ivonete Gonçalves já viu muita coisa na vida. Mas, o que a aposentada de 68 anos mais quer ver realizado, atualmente, é um sonho que, felizmente, já está em andamento. “Quero muito ver a minha casa, que eu tô terminando com a ajuda do meu filho, ficar pronta. Daí sim, não vai me faltar mais nada”, dispara, orgulhosa de ver a morada, que já foi de madeira, estar agora tomando forma com tijolo e cimento.
Dona Ivonete chegou ao São Paulo em 1996. Um pouco antes, havia se separado do marido e queria começar vida nova, sozinha. Comprou um lote e levantou um casebre de madeira, sempre com a ajuda do filho. Os anos passaram, o que era uma ocupação virou bairro e dona Ivonete sentia falta de algo: um cantinho melhor, mais confortável e mais bonito.
Em 2009, juntou um dinheirinho e, com a ajuda de amigos e do filho, conseguiu comprar os materiais pra começar a reforma da residência. “A reforma tá devagar, porque o meu filho trabalha fora e me ajuda quando pode. Mas, logo, logo, ela acaba”, comenta a velhinha, sem esconder a felicidade de ver seu sonho se realizando.
Mas dona Ivonete também pensa no bem-estar da comunidade. Além do sonho pessoal, quer ver todo o bairro calçado, com os dois postinhos de saúde funcionando e com as escolas educando a criançada. “É tudo que eu quero. A gente merece um lugar que tenha tudo que precisamos e que atenda as nossas necessidades. Mas primeiro quero juntar mais um dinheirinho pra terminar a minha reforma”, reforça.

“Quero mesmo paz no bairro São Paulo”
“Que pergunta difícil, hein! Sonho? Meu Deus, são tantos”, responde seu Jones Eleotério de Jesus, 71 anos. Não demora muito e a resposta sai numa tacada só: “Quero mesmo é nunca mais ver as cenas de violência que vimos algumas semanas atrás. Quero paz no bairro São Paulo!”.
Seu Jones conversou com o DIARINHO no quintal da sua casa, na rua José Frederico de Souza. Já era quase meio dia e a casa do aposentado tinha um aroma agradável de comida caseira. Seu Jones tem 11 filhos e calcula que tenha mais de 50 netos. Morador do São Paulo há 22 anos, acompanhou o crescimento da comunidade e também da criminalidade por lá. “Graças a Deus nunca sofremos nenhum tipo de violência aqui. Nem eu e nem ninguém da minha família”, afirma.
Mas os sonhos não são apenas do velho patriarca. Juliana, 12 anos, netinha de seu Jones, aproximou-se devagar e tímida e ficou observando o avô. Perguntada sobre qual é o seu sonho, a pequena pensou um pouco e respondeu: “Eu gosto de matemática e quero ser médica quando crescer”, disse, contando que tira boas notas e adora estudar.
Seu Jones é uma daquelas figuras populares. Conhece todo mundo no São Paulo. As pessoas que passam pela rua gritam uma saudação, acenam ou param pr’uma conversa. “Tu me perguntou do sonho? É difícil de responder, porque o que eu gosto é isso aí, de ver quem conheço me cumprimentando”, conclui o aposentado.

  • TÁ VIRANDO REALIDADE

Povão tá começando a ficar dono do próprio chão
Tem sonho coletivo na comunidade estigmatizada pela violência e pela ação dos traficantes que tá virando realidade. Cerca de 70% das 10 mil pessoas que hoje vivem no bairro São Paulo estão bem próximas de conseguir seus títulos de propriedade definitivos dos lotes onde moram. Com isso, o São Paulo vai deixar de ser uma ocupação e virar, de verdade, um bairro, onde o povão é dono do próprio chão.
Natália Ferreira Costa, diretora de patrimônio da prefa dengo-dengo, explica que que foi acordado um termo de cooperação mútua com empresas interessadas em fazer o projeto de regularização dos terrenos. “Com a regularização, os moradores vão poder fazer um financiamento, averbar a casa, vender a propriedade, tudo isso de uma forma legal”, afirma.
Natália conta que a regularização tem como objetivo maior o título e o registro do imóvel. Ela diz que o projeto envolve o executivo, o legislativo e o judiciário. Tudo começou com os vereadores e a votação de um projeto de lei, que foi aprovado por unanimidade. A prefeitura entrou indicando as áreas a serem regularizadas e depois veio a dona justa, que vai dar a canetada final pra confirmar a regularização. “O trabalho começou no final de 2009, com os levantamentos cadastrais. Em 2010, houve os primeiros processos entrando no fórum. E, agora, estamos na fase final. Falta só a sentença da juíza pra liberar o título definitivo”, relata.
Com a legalização dos lotes, o bairro São Paulo tende a crescer ainda mais. Regularizada, a comunidade poderá receber grana e melhorias vindas dos governos estadual e federal, além de poder cobrar mais ação da prefa. Natália não tem dúvida que um novo e melhor bairro São Paulo está emergindo com a regularização. “A maioria dos moradores aderiu ao projeto e, os que não aderiram, estão aderindo. A comunidade toda vai ganhar. Navegantes vai ganhar também”, discursa.
 

Envolvidos

  • Ivonete Gonçalves .
  • Jones Eleotério de Jesus , 71 anos.
  • Jones Eleotério de Jesus , 71 anos.
  • Mário Quintana .
  • Natália Ferreira Costa .
  • Raul Seixas .


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